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Alimento Espiritual: Artigos e Formação

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Ser só, para ser mais de Deus!

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A solidão existencial afetiva dos consagrados
Do livro: “Vocação: uma vida encantada com Deus!” de Juracy Villares.
 

Só quando vivemos uma forte solidão existencial, despojado de tudo e de todos, sem cultuar nada e ninguém no nosso interior, embora cercados de pessoas, é que podemos estar diante de Deus, reunindo toda a coragem de ser e ser só para Ele. E depois ser com Ele mais plenamente para todos os outros.
Os verdadeiros e grandes encontros com Jesus Cristo ocorrem quando estamos existencialmente a sós com Ele, quando nada mais nos resta, nem temos mais ninguém com quem contar. Realmente Jesus é o último a nos deixar e nunca se vai ... Quando há uma solidão existencial afetiva, as orações e os encontros com Deus são mais fecundos e duradouros, como as primeiras notas musicais após a pausa.
Aos 11 anos, vivi a solidão da minha primeira perda: a pessoa que cuidava de mim desde o meu nascimento, a única que eu aprendera amar, e me fizera acreditar que só ela me amava, foi embora. Mas, descobri que nem ela me amava, era uma simples profissional. Foi uma experiência muito dolorida, levou anos para sarar e esta solidão interior lançou-me nos braços de Jesus. Nesta ocasião, eu visitava o Santíssimo Sacramento, às 4 feiras, às 12 horas, na volta da escola e, embora neste horário quase não houvesse ninguém, fechava a porta da igreja para Deus ser só meu. “Estar à sós com Jesus” ajudou-me eficazmente, pois fazia ali quase que uma terapia de apoio: contava para Jesus toda a minha vida, minhas intimidades, dores, rejeições, injustiças, as piadas de adolescente, as descobertas; dançava e ria com Ele.
Na Bíblia, em Habacuc 3, 16-19 vemos um texto que nos enche de esperança em situações difíceis. Quem já experimentou a dor da desestruturação afetiva, da rejeição, conhece a sensação de estar continuamente diante da morte, esperando por sua ameaça imprevisível. É viver a expectativa da desintegração. “...a cárie penetrou nos meus ossos, e os meus passos vacilam debaixo de mim.” (versículo 16) Além de doer, o desamor corrói os nossos apoios, fazendo os passos vacilarem; é uma verdadeira aflição. Apesar desse clima de fracasso exterior, de improdutividade, de pouca colheita, de falta de alimento afetivo, (versículo 17), podemos ainda encontrar alegria em Deus e receber d’Ele a força de viver. “Eu, porem, regozijar-me-ei no Senhor. Encontrarei minha alegria no Deus de minha salvação. Javé, meu senhor, é minha força, ele torna os meus pés ágeis como os da corça, e me faz andar sobre os cimos.” versículo 18 e 19. Realmente, Deus é o último a ir embora da nossa vida, e nunca se vai.
Os Evangelhos apresentam vários casos de encontros profundos com o Senhor Jesus, após estes períodos de solidão existencial. Nesse contexto, o celibato pode ser visto como uma situação especial de solidão afetiva que só encontra sentido na contemplação, ocasião de fonte de fecundidade para consolidar com Deus um Amor indiviso, capaz de levar avante o projeto do Amor de Deus para todos os homens.
O celibato, às vezes, é erroneamente considerado como um grande heroísmo, devido ao engano da inflação sexual desta época em que vivemos. Podemos constatar este erro, se considerarmos que há um grande número de pessoas rejeitadas que estão em solidão existencial desde que nasceram, sem terem feito opção, sem ser por Deus, sem ser por Amor. E o celibato é só um pálido reflexo da dor dos rejeitados, uma vez que a solidão existencial dos consagrados, além de ser parcial (só conjugal), é plena de sentido (por Jesus).
A mulher adultera, em João 8,1-11, quando apanhada em flagrante, foi abandonada até pelo seu parceiro. Mas, o Senhor estava lá, e não foi embora. Quando a gente peca, Jesus assiste a todos os nossos pecados, é sempre testemunha ocular. Ela só teve um encontro forte com o Senhor depois que ficaram à sós. No versículo 9, diz que Jesus ficou sozinho com a mulher diante dEle, e perguntou a ela: “Mulher, onde estão os que te acusavam ? Ninguém te condenou ? Respondeu ela : Ninguém, Senhor.” Todos se foram. Jesus disse : ”Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar. “ Que alívio , quando a mulher adúltera pôde ser existencialmente diante do Senhor Jesus! Sem máscaras, sem cobranças, e ser ela mesma gratuitamente, pecadora, diante do Senhor que ama, e a amou de verdade e lhe deu Vida Nova! Isto é Ressurreição!
A mulher hemorroísa de Marcos 5,25-34, deixou os médicos, os remédios, 12 anos de vida sofrendo decepções humanas, sofrendo muito nas mãos de vários médicos, verso 25-26, tendo gasto todo o seu dinheiro sem alívio, depois de tanta confiança depositada em soluções humanas resolveu confiar só em Jesus, na sua solidão contentou-se com a orla de seu manto, verso 27-28.
Os muito rejeitados do mundo contentam-se com tão pouco, um sorriso, um olhar de atenção, já é o suficiente, é a orla do manto! Mas, se não tem formação e com baixa auto estima, prostituem-se devido à carência de afeto, aceitando qualquer carinho.
“Se eu tocar, ainda que seja na orla de seu manto, ficarei curada .” Na sua humildade, na sua solidão, queria menos que a presença amorosa de Jesus, procurou um pedaço do pano de sua roupa... Mas Jesus nos ensina que não devemos nos contentar só com o manto, Ele quer encontrar-se conosco ! Ele não rejeita um coração sozinho !
Jesus é o Eterno Companheiro, Amoroso, Habitante Permanente das nossas solidões! O necessário é que tendo deixado tudo e a todos não nos contentemos só com o manto, mas busquemos o Olhar de Jesus! (alguns religiosos tem se contentado só com a veste, consumindo-se unicamente no serviço. Irmãos, busquemos o Olhar de Jesus. Contemplá-Lo !...) A mulher ficou constrangida quando Ele perguntou : “Quem tocou minhas vestes?” Jesus a procurava com Amor, verso 30 e 32. Seu Coração é atraído quando só temos a Ele ! Ele nos busca !... É condição necessária para assumir uma vida celibatária, crer na Ressurreição! Jesus Vive!
A própria reclamação de Marta, “Senhor não te importas que minha irmã me deixe só a servir ? Dize-lhe que me ajude”revela que a Maria deixou o serviço e a irmã para estar só com Jesus. Na resposta de Jesus, a contemplação deve ser anterior ao serviço e necessária para sustentá-lo. (ver em Lucas 10,38-42). Santa Teresa diz : “Eis a finalidade deste matrimônio espiritual com Deus, da oração de União: que dele nasçam obras, sempre obras.”
Quando Pedro, em Lucas 22,54-62, se sentiu sozinho no meio da multidão, após ter traído Jesus, encontrou o olhar acolhedor de Jesus, verso 61, e mergulhou no “Tu”. Jesus é este que nunca condena, que nunca rejeita no pior estado em que estivermos. Pedro chorou amargamente, é duro machucarmos quem nos ama de verdade!...
O cego de Jericó, em Marcos 10,46-52, também ignorou tudo e todos, tirou a capa, desconsiderou as recomendações dos outros e gritou como alguém que só tinha Jesus pela frente: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim !” (ele não tinha outras vontades: ele queria a Jesus). Ele teve um encontro com Jesus exatamente porque estava muito só e em extrema pobreza. Era um mendigo. A sua solidão, sua pobreza e o seu pedido de socorro atraíram Jesus que parou e disse: “Chamai-o”. Ele teve pobreza de coisas, de pessoas, de vontade, de normas e etiquetas sociais, então pôde encontrar-se com o Último a nos deixar.
Zaqueu, em Lucas 19,1-10, também desconsiderou sua posição sócio-econômica, seus bens, as pessoas, e se lançou para ver Jesus, tentando superar sua pequenez, afastou-se de todos subindo a uma árvore, um sicômoro. Jesus, chegando àquele lugar, viu a solidão de Zaqueu, verso 5, e disse-lhe : “Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que Eu fique hoje, em tua casa.” Jesus se hospeda na nossa solidão existencial.
Um dos mais interessantes encontros com Jesus foi o de Pedro em Mateus 14,22-33. Pedro estava com os outros discípulos na mesma barca, mas só Pedro teve o encontro com Jesus sobre as águas. Qual a diferença entre Pedro e os outros discípulos?
Pedro teve a coragem de deixar a segurança da barca, o serviço, deixar os companheiros para ser só com Jesus. E, entrou em solidão existencial deixando sua própria sabedoria, seu ser racional, confiou só em Jesus, pisando duro em águas moles. A força desta audácia está no Olhar de Jesus, só a contemplação nos dá a segurança de existir só. E se vacilarmos na caminhada, estaremos nos Braços de Jesus ou bem perto dele, se nos mantermos em contemplação.
Pedro ignorou a barca, as pessoas, suas teorias de bom pescador e confiou em Jesus então andou sobre as águas. Mas, momentos antes de confiar em Jesus precisou deixar tudo, ser totalmente pobre.
Além da pobreza de coisas, de pessoas, de carinhos, de reconhecimento, pobreza de vontade, de desejos, de emoções, de querer prodígios, milagres é necessário a pobreza de contentar-se só com Jesus, de ser só para Jesus no cotidiano, no comum, no dia à dia, sem acontecer nada de novo. Quando só restar a nossa fidelidade constante e diária de ser de Jesus, para servir e amar os irmãos, em Nome dele, somos mesmo consagrados.
Todas estas pessoas: a mulher adúltera, a hemorroísa sofredora, a Marta, o Zaqueu, o cego de Jericó, o Pedro, estão na vida dos consagrados, para serem amados por eles e por Jesus neles. Mas, para que os consagrados aprendam a amá-los é necessário vivenciar as condições existenciais da vida deles: a solidão dos abandonados e rejeitados. O celibato é um pálido reflexo da solidão afetiva da vida dos rejeitados e dá condição para, em verdade, poder atender bem e dizer: “Eras Tu, Senhor, neste que amei com paixão, com dor, com Teu Amor e com minha vida?!!!”.
Tudo para a maior Glória de Deus! E que não tenhamos medo de ser só com o “Último a nos deixar e que nunca se vai”... o Nosso Senhor Jesus Cristo !

Juracy Villares

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