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Alimento Espiritual: Artigos e Formação

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A graça da paternidade espiritual e psicológica no sacerdócio

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Do livro: “Vocação: uma vida encantada com Deus!” de Juracy Villares.
 
Em que consiste a paternidade? Como é possível neste mundo que esqueceu seus valores, falar  em paternidade? Como dar sentido à palavra pai no atual contexto?
Antigamente nossos pais assumiam todas as funções: concepção, tutor legal, educação, direcionamento profissional e vocacional e podíamos falar que: “Nós tivemos os nossos pais, segundo a carne,  como educadores e o respeitávamos.  Não haveremos de ser muito mais submissos ao Pai dos espíritos a fim de vivermos? Pois eles nos educaram por pouco tempo, segundo lhes parecia bem.  Deus, porém, nos educa para o aproveitamento, a fim de nos comunicar a santidade.” (Hebreus 12,9-10). E Deus nos educava através da Igreja para a santidade, dando-nos um sentido para a nossa vida.
Atualmente, devido a crise de desagregação da família, a função existencial  de pai e de mãe é realizada por diferentes pessoas, que às vezes nem tem estes nomes, tornando-se difícil identificá-los para formar a síntese de nossa personalidade e alcançar a maturidade  sem a ajuda de  um psicoterapeuta.
 A  paternidade (assim como a maternidade)  é constituída de funções: externa e interna. A externa : pais biológicos que nos deram sua carne e  pais legais ou morais ou de Direito que nos deram seus nomes e são responsáveis por nós diante da lei. A interna pais psicológicos que nos criaram nos educaram dando um modelo de homem e de mulher e pais espirituais que nos deram uma missão,  uma perspectiva de vida,  um sentido para as nossas vidas
O relacionamento psicológico paterno (assim como o materno) é uma relação de ajuda para fins educativos que dura aproximadamente 21 anos no ser humano. Trata-se de  um vinculo natural afetivo vertical onde um ser humano adulto dá amor, orientação e o outro ser humano pequeno só recebe. Esta diferença garante e incompatibiliza o desenvolvimento de um relacionamento sexual entre pai e filha ou entre mãe e filho.
Na nossa sociedade ocidental, o papel existencial de pai está cada vez mais deteriorado, omisso, ausente e distorcido. A freqüência da doença psicosexual pedofilia está cada vez mais acentuada em conseqüência da falta de autoridade materna e paterna e a quebra da relação de ajuda .
Muitas famílias são desagregadas e contam só com a figura materna ou paterna (a maioria, só materna). Às vezes, a função existencial de pai é exercida por outras pessoas ou por menores que nem tiveram realmente um pai, ficando assim, superficial e deteriorada a imagem de um adulto masculino na educação. O pai tem perdido o seu lugar e seu significado profundo. Será que estamos criando uma geração de órfãos?... Mas, Jesus disse: “Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós.” (João 14,18). Órfãos significa sem pai ou sem mãe. Onde encontrar esta presença de Jesus que não nos deixa órfãos?... Em cada sacerdote há uma presença de Deus, um pai  de reserva.
Os sacerdotes, pelo sacramento da Ordem, recebem este relacionamento sobrenatural, de exercer a função de presença de Deus, sendo pai em nome  de Deus, com base na sua realidade existencial natural de ser homem e pai, para exercerem a paternidade interna.  No entanto, eles vieram de famílias com crise e sofreram a influencia deste problema psicossocial do nosso século: o desenvolvimento e emancipação da mulher, a ausência da figura de autoridade masculina e também tem perdido o sentido de sua paternidade espiritual e psicológica.
Não podemos negligenciar este valor psico-espiritual: pai. Precisamos resgatar o papel do homem e de pai  na nossa cultura, nas nossas famílias e também na Igreja. Em que consiste o amor paterno para que possamos reconhecer a presença de Jesus  nos sacerdotes ?...
O amor paterno é feito de estímulo e  de solicitude. O pai vê, ouve, confere, emite um parecer, dá segurança ao filho, comunica vida e ensina. O pai assim, se torna modelo para o filho que o observa. Na Bíblia, vemos que Deus é pai de Jesus: “Eu falo o que vi junto de meu Pai; e vós fazeis o que ouvis de vosso pai.” (João 8,38). O sacerdote exerce esta função quando nos atende individualmente na confissão, ouvindo-nos, orientando-nos.
O pai provê, patrocina, providencia, ampara, protege, guarda o filho. Torna-se o forte-íntimo, o grandão-perto e isto dá segurança ao filho. “Meu Pai que me deu tudo, é maior que todos e ninguém pode arrebatar da mão do Pai. Eu e o Pai somos um”. (João 10,29-30). O sacerdote faz isto quando cuida da paróquia, das pastorais e protege a vida orientando com sua autoridade de pastor.
Deus têm se mostrado Pai Eterno: “Deus é nosso refugio e nossa força, um socorro sempre alerta nos perigos. E por isso não tememos se a terra vacila, se as montanhas se abalam no seio do mar” (Sl 46 (45),2-3).   “Eu amo Iahweh, minha força, (meu salvador tu me salvaste da violência). Iahweh é minha rocha e minha fortaleza, quem me liberta é o meu Deus. Nele me abrigo, meu rochedo, meu escudo e minha força salvadora, minha torre forte e meu refugio.” Sl 18 (17),2-3.
O pai estimula, impulsiona a seguir em frente, não faz pelo filho, mas ensina a fazer e dá sua presença. O pai dá ordem ao filho, dá autoridade de fazer, de agir em seu lugar. Jesus respondeu: “Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho”. (João 5,17) “E quem me enviou está comigo. Não me deixou sozinho, porque faço sempre o que lhe agrada”. (João 8,29). O sacerdote também faz isto quando envia os leigos a evangelizar, estimula e orienta os leigos na política.
O pai sempre  quer fazer crescer o filho e levá-lo à plena maturidade. O pai corrige o filho. Um pai com muito custo louvará o filho  em sua presença e quando o faz sempre tem uma reserva ou uma condicional, receia que fique convencido e deixe de progredir. Parece estar sempre corrigindo e nunca está satisfeito com a atitude do filho pensando orgulhosamente que o seu filho pode ir mais além. “Vós esqueceste a exortação que vos foi dirigida como a filhos: Meu filho, não desprezes a educação do Senhor, não desanimes quando ele te  corrige; pois o senhor educa a quem ama, e castiga todo filho que acolhe. E para a vossa educação que sofreis.  Deus vos trata como filhos. Qual é, com efeito, o filho cujo  pai não educa? Se estais privados da educação da qual todos participam, então sois bastardos e  não filhos . (He 12, 6-8).
Deus quis se revelar a nós como pai, através do sacerdote. Deus criou a natureza e a  humanidade e o sacerdote também  torna-se criador pelo sacramento da Ordem criando na Eucaristia a própria Presença de Deus. Nisto parece que se cumpre a palavra de Jesus: “Em verdade , em verdade , vos digo: quem crê em Mim fará as obras que faço e fará até maiores do que elas, porque vou para o Pai.” (João 14,12).
Às vezes, alguns sacerdotes por uma má compreensão do celibato e da castidade,  tornam se estéreis afetivamente como pai psicológico e não se preparam adequadamente para amar em nome de Deus e exercer a paternidade interna. O sacerdócio se empobrece, carece de sentido e quase morre quando o padre não assume a sua paternidade, amando seus filhos espirituais.
Os sacerdotes não geram filhos naturais (não tem a paternidade externa) e tem dificuldades  assumir a paternidade interna no amor. Alguns só conseguem ser pai de crianças e suas paróquias só enfocam a Catequese Infantil. Outros só conseguem ser pai de pobres e focalizam a Teologia da Libertação. Outros só conseguem ser pai de doentes retardados e velhos focalizam a Pastoral de Saúde e visitam os doentes. Alguns ainda conseguem ser pai de jovens e focalizam a pastoral da Juventude....A maior dificuldade são com os adultos, com casais, e com as pessoas consagradas ou com a direção espiritual dos mais crescidos na fé.
A paternidade sacerdotal é uma conquista pessoal do padre, aos poucos ele vai aprendendo a pastorear e amar como Pai a todos os tipos de pessoas e se sentir emocionalmente e existencialmente: Pai de todos. Como o sacerdote pode se preparar para assumir esta paternidade?
No aspecto psicológico, o sacerdote precisa elaborar e  assumir a sua experiência pessoal de relacionamento com seu pai, sua identidade psicológica de homem, sua auto-estima, rever seus preconceitos com autoridade e seus complexos de inferioridade, exercitar sua  autoridade, e amar seus filhos não gerados.
No aspecto espiritual, precisa contar com o poder do alto, com o poder do  Espirito Santo, exercer uma paternidade vivida na Fé no seu sacerdócio, na Ordem de Deus. “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide pois, ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que Estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28, 18-20) . Fazer discípulos é ser pai espiritual. O sacerdote precisa assumir sua nova posição: crer que está no colo do Pastor, crer que é  maior que seus antigos irmãos pelo sacramento do Batismo, crer que é o servo que Deus constituiu para pastorear as ovelhas (Jo 21, 15-17). Crer para ser Pai espiritual.
O sacerdote  guarda em si duas presenças existenciais: a de Jesus, idêntico ao Pai Eterno, como Ele mesmo nos disse: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30), pastor “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10, 14-15), e a de homem igual a nós, ovelha, filho e pode nos compreender muito bem.. Ao atender as confissões, ao ensinar, ao pastorear seus paroquianos faz um serviço psicológico paterno. Ao interceder junto de Deus pelas pessoas se coloca como um filho entre seus irmãos.
Padres, assumam o significado deste nome.
Parabéns pelo dia dos Pais !

Juracy Villares

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