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Ser gente é ser pessoa

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Ser pessoa é existir em todas as dimensões do ser humano: biológica, social, psicológica e espiritual (principalmente nessas duas últimas que são interiores).
Nós existimos à medida que perseguimos valores, metas, ideais que nos atraem e nos impelem a ‘gastar’ a vida, a autotranscender-nos, a doar-nos, a sair de nós mesmos para uma missão maior que nós mesmos.
O ser humano é um ser bio-psico-sócio-espiritual, segundo a Antropologia e Ontologia aceita pela Análise Existencial e Logoterapia de Viktor Emil Frankl.
A dimensão biológica ou somática abrange toda a materialidade corpórea de que somos constituídos, o corpo com seus vários sistemas: circulatório, respiratório, digestivo, endocrinológico, neurológico, e outros.
A dimensão psíquica compreende os aspectos da personalidade do indivíduo, ou seja, a maneira com a qual ele recebe e administra o conjunto das emoções, sensações, percepções, impulsos, instintos, desejos, memória, comportamentos adquiridos, etc.
A dimensão social diz respeito ao relacionamento que estabelecemos com as pessoas e as coisas, relações sócio-econômicas, costumes sócio-culturais, relacionamento opressor x oprimido, relacionamento comunitário, sistemas sociais e seus condicionamentos, etc.
A dimensão noética, espiritual ou existencial está situada além do psico-físico, numa visão mais ampla que inclui o espiritual não apenas como dimensão religiosa, mas também moral (ética), intelectual (cognitiva) e artística (estética).
Desde a concepção, recebemos inúmeras contribuições biológicas, psicológicas e sociais, sejam gravadas geneticamente e reelaboradas no processo educativo, sejam adquiridas no convívio social. O espírito é a única contribuição que não se recebe por via genética, nem pode ser adquirida no convívio social; recebe-se no momento da concepção. Viktor Emil Frankl, com grande perspicácia, descobriu a religiosidade em estado latente no interior do sujeito, muitas vezes só revelada através da análise de sonhos, inclusive de pessoas irreligiosas ou atéias. É a esta tendência inconsciente para Deus que Frankl chamou de estado inconsciente de relação com Deus ou “presença ignorada de Deus”.1
Quando assumimos a presença e o senhorio de Jesus Cristo em nossas vidas e desenvolvemos um relacionamento pessoal com Deus, ouvindo o Senhor que nos fala na voz da consciência, todo o nosso ser entra em harmonia e a nossa pessoa interior começa a governar nossa personalidade e somos capazes de ser nós mesmos, centralizados, irradiando tranqüilidade e paz.2
A Personalidade é a organização dinâmica, no interior do indivíduo, de sistemas psicofísicos que se manifestam em sua conduta e em seu pensamento característico, e possui um centro estável chamado Pessoa (que persegue finalidades imanentes e transcendentes).
A Pessoa refere-se à essência do ser humano, àquilo próprio, específico dele. Constitui o centro da personalidade, a existência. Dá integração e autenticidade ao ser humano. O “Eu = Pessoa” é portador de propriedades incomunicáveis, é capaz de autoconsciência e persegue fins que podem superar a si mesmo e à sua espécie.
Em condições normais, a Pessoa governa o seu meio íntimo, governa a sua personalidade, para responder à vida. A personalidade é o veículo pelo qual se move a pessoa. A figura abaixo ilustra essa realidade.

Os seres humanos desajustados são mal-humorados, descentralizados de sua pessoa, ficam dependentes de outras, esperando algo de fora. Quando uma pessoa é centrada em si mesma, ela traz a identidade do que é e reflete essa identidade, irradia para fora essa harmonia interior em sua linguagem, gestos, tornando-se bonita e expressiva. Isto é ser eu mesma, SELF, ser Pessoa, ser verdadeiramente ‘eu sou’!
Só após ser pessoa conseguimos amar, saindo de nós mesmos, amando gratuitamente, correndo todos os riscos de sofrer pela felicidade da pessoa amada, sem esperar nada em troca; então, somos da mesma natureza de Deus que é Amor e temos maturidade psicológica afetiva ¾ capacidade de autotranscendência de ser humano.


1“A Logoterapia, portanto, é uma psicologia que, sem perder o rigor científico, introduz a noção de transcendência na ciência do homem. Vai além da imanência, rumo à transcendência, transformando-se numa mensagem libertadora do ser humano, ao libertá-lo dos determinismos, tanto psicológicos como sociais” (Frankl, Viktor E., A Presença Ignorada de Deus, p. 9).
2“Quando começamos a tentar obedecer a Deus, Ele se torna para nós muito pessoal, não apenas uma vaga força. Nossa idéia Dele muda. Então, na medida em que Ele nos mostra as profundezas da nossa personalidade, profundezas boas e más, nossa idéia de nós mesmos muda. Descobrimos que não conhecemos a nós mesmos muito bem. Na medida em que decidimos existir Nele, Ele começa a ajuntar os nossos pedaços espalhados, dos quais estávamos separados”. (Payne, Leanne, A Imagem quebrada: Restaurando a Integridade Pessoal através da Oração de Cura, 1981, p. 138
 

Juracy Villares

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