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Alimento Espiritual: Artigos e Formação

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Ser pessoa é ser templo do Espírito Santo!

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Do livro: “Vocação: uma vida encantada com Deus!” de Juracy Villares.
 
Um dos problemas mais comuns nos dias de hoje é a dificuldade dos seres humanos em “ser pessoa” e sair de si para o Amor. A dificuldade em ser pessoa, em deixar-se existir impossibilita a experiência do amor, da conversão e o desenvolvimento de uma vida de oração, no sentido de verdadeira comunicação com Deus que habita dentro da Pessoa, como um Tu.
Na agitação do mundo moderno, não nos educamos mais para ser ontologicamente. Não há silêncio e tempo para o espiritual neste mundo materialista. “Não sabeis que sois o Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado ¬ e isto sois vós” (1Corintios 3,16-17).
Como reflexo disso, uma quantidade considerável de pessoas vive sem identidade própria, como sombras de outras, elas ‘pegam uma carona’ na existência alheia, que lhe parece mais segura e confiável, não oferecendo, assim, riscos para si mesmas. Isso gera um grave problema da ausência de si mesmo, na medida em que encontramos ‘sombras’ cobrindo lugares existenciais de outros, enquanto os seus próprios lugares permanecem omissos e vazios. Assim, temos filhos ocupando lugares existenciais de pais e mães; mães assumindo lugares de filhos ou funções paternas; pais assumindo funções maternas ou postura de filhos.
Nos dias de hoje, em grande parte por causa da violência, as crianças não têm mais aquelas experiências simples de vida, tal como soltar pipa, ir à escola sozinhas, fazer pequenas compras na venda, brincar de pique ou bola na rua. Elas ficam eternamente voltadas para si mesmas e incapazes para o amor. Então, o processo da maturidade psico-afetiva acaba sendo superficial e atrasado. As experiências infantis de resolver pequenos problemas, tomar pequenas decisões, enfrentar relacionamentos com amigos, sofrer pequenos incidentes, realizam valores criativos e se tornam verdadeiras ‘vacinas psicológicas’ para os problemas que vierem a enfrentar na vida adulta.
Como dissemos acima, o ser humano não está isento de determinismos biológicos, psicológicos e sociais. Mas há um fator que é decisivo na constituição da pessoa: ser livre para tomar uma atitude diante desses determinismos.1
O homem é livre para a realização do sentido da vida em cada situação. Cada ocasião tem um significado ou um sentido próprio. É na busca desse sentido que nós atingimos a autotranscendência, saindo de nós mesmos para o Amor. Quando o homem não descobre um sentido para a vida, sua frustração existencial o leva a buscar prazer ou poder para ter felicidade e sucesso. Quanto mais busca, mais logra encontrar. O prazer e o poder são uma volta para dentro de si mesmo.
Definimos o homem como um ser que busca sentido para sua vida. Essa busca ¾ a vontade de sentido ¾ é que move o ser humano. A vida tem sentido sempre e nós temos que ir descobrindo e concretizando esse sentido através da realização de valores criativos, valores vivenciais e valores de atitudes, conforme a circunstância em que nos encontramos.
Em nossos dias, um número cada vez maior de indivíduos dispõe de recursos para viver, mas não tem um sentido pelo qual viver. A maior perda do ser humano é o sentido da própria vida.
Numa sociedade tecnológica e secularizada, a formação do homem tem um caráter meramente acadêmico e a parte existencial, afetiva e ética da pessoa fica superficial, carente de experiências mais profundas que possibilitem a reflexão e a formação de valores.
Dessa forma, algumas pessoas tornam-se oprimidas e outras, opressoras. Uma criança criada em ambiente tumultuado por crises familiares, condições econômicas insatisfatórias, separações dos pais ou colocada um tempo enorme diante da TV ou computador, anula-se a si mesma e fica, como a menina do espelho, assistindo à vida, sem nunca ter vez de existir, sempre na sala de espera da vida dos outros. Porque não foi amada, apresenta baixa auto-estima, considera-se menos que os outros, torna-se a falsa boazinha, subserviente: faz tudo o que lhe pedem sem questionar. Não forma em si mesma valores, critérios, princípios de vida próprios. Sente-se descartável, fala “sim” mesmo contrariada, expressa-se sempre no singular e nunca se inclui no “Nós”. Em cada relacionamento não descobre seus limites e fica sem defesa pessoal, invadida pelo ambiente. Se não luta por seus valores, não se ama e nunca vai se autotranscender. É a própria imagem do Oprimido, bem ao contrário de “Eu Sou”.
Outras, nesse estado de apatia, se agarram à bebida, às drogas, a um cargo de autoridade, ou a algum meio externo que possibilite uma falsa auto-afirmação do ser e fazem de tudo para tornar-se Opressor como revanche da situação. Apresentam-se, nessa fase, como donos da verdade, salvadores de todos e dão a impressão de que ninguém presta, só eles. Consideram-se com valor máximo, sempre insubstituíveis, enquanto as pessoas à sua volta são desqualificadas e descartáveis. Sempre falam não e, depois, até podem concordar. São escravos de aparências. Tornam-se ativistas, sem reflexão e, incapazes de elaborar valores próprios, invadem o espaço psicológico dos outros, às vezes até com agressão física. Falam sempre no plural e se incluem nos projetos dos outros. Buscam o sucesso, mas como não amam as pessoas nem o que fazem, não se realizam.
O ser humano precisa descobrir seus valores, seus sentimentos, sua originalidade, seus limites seus ideais, isto é, sua missão existencial. A vocação, a missão existencial, fundamenta-se num ser já existente, portanto o primeiro chamado vocacional é a vocação de existir, de ser gente, de ser pessoa. Jesus disse bem claro para amarmos os outros como a nós mesmos: “Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes não existe” (Marcos 12, 31).
Ser pessoa é amar a si mesma, com direito a ser diferente e de igual valor perante os outros. Alguém que tenha essa dimensão de seu ser, não se considera descartável nem insubstituível, valoriza cada situação e os outros seres humanos com relatividade equilibrada. Podemos dizer que ela acolhe no íntimo de seu ser o postulado bíblico: “Dizei somente: Sim se é sim; Não se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno” (Mateus 5,37).
A pessoa que se valoriza reconhece os seus limites, perdoa-se e com sua autocrítica contínua e dinâmica adquire uma autodefesa psicológica pessoal. Respeita então, o Templo do Espírito Santo que todos nós somos. Vive! “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis” (1Corintios 6,19).
Receber amor é fundamental para o ser humano existir plenamente. Tanto quanto receber comida e água para sobreviver fisicamente, precisamos receber amor para a sobrevivência do nosso ser existencial e psicológico. A pessoa que foi amada aprende a se amar e ama tudo o que realiza, por isso faz tudo com gosto e entusiasmo, reconhece e ama os outros seres humanos. .
O aspecto básico desse problema de ser eu mesmo, ser ontologicamente, está na visão de homem adotada pela modernidade, a partir da divisão cartesiana entre alma e corpo, a qual cria uma cisão entre ser, pensar e agir. A Boa Nova do Evangelho se fundamenta numa visão de homem integral como a expressa em: “O Deus da paz vos conceda santidade perfeita. Que todo o vosso ser: espírito, alma e corpo sejam conservados irrepreensíveis para a Vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!” (1 Tessalonicenses 5, 23).
Quando somos respeitados e amados, o ser ontológico se desenvolve naturalmente. Ao acolher o Amor de alguém por nós, tomamos consciência de nossa existência. A educação deve permitir o uso da liberdade para errar e acertar, para responder à vida, para amar.
Essa unidade existencial do ser humano, esse ser eu mesmo, esse dar-se conta da própria existência acontece quando somos amados. Ao receber amor, recebemos vida e ao acolher a vida, a ternura, o reconhecimento de que somos importantes, existimos, e nos deixamos existir, dando-nos conta de que somos. Assim, temos condições de exercer a liberdade para responder à vida com responsabilidade e amor.


1“A liberdade do homem não é estar livre de condições, mas antes estar livre para tomar uma posição em quaisquer condições que porventura o cerquem” (Frankl, Viktor E., The will to Meaning, New American Library, Nova York, 1970, p. 16).

Juracy Villares

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