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Realização e auto–estima através do trabalho

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Do livro: “Vocação: uma vida encantada com Deus!” de Juracy Villares.
Realização e auto–estima através do trabalho? Muito mais que isso! O ser humano é um ser social e precisa integrar-se e engajar-se na sociedade de um modo responsável. O trabalho representa essa dimensão através da qual o homem se encaixa de maneira responsável na sociedade, tornando-se colaborador da comunidade, garantindo sua sobrevivência e adquirindo segurança psicológica diante dos demais seres humanos.
O exercício de uma profissão dá a segurança emocional de se sentir útil à sociedade, treina pequenas decisões e desenvolve os valores criativos da pessoa, condições que facilitam o desabrochar da Vocação. Por outro lado, também exerce uma função preventiva, evitando a fuga da luta pela sobrevivência, fuga da responsabilidade de ser adulto, seja pela escolha de uma pseudovocação, com a intenção de se apoiar em outros seres humanos, seja pela não-escolha e aniquilamento de suas faculdades naturais.
A forma como cada pessoa se integra na sociedade revela aspectos do seu interior e dá indícios da sua missão existencial no mundo, ou seja, da sua vocação existencial. Há pessoas que se relacionam com o mundo de um modo técnico, mecanicista, científico; outras, de modo comercial, mercantil, econômico; outras, de modo humano, educacional, artístico, legalista, literário; outras, de modo comunicativo, humorista, comunitário, religioso. Seja como for, esses aspectos vivenciais que configuram o ambiente de trabalho acabam sendo transferidos para as relações da vida cotidiana e condicionam nossa visão de mundo. Isso tem suas vantagens e desvantagens, de acordo com a relação mais ou menos íntima entre profissão e vocação.
A vocação é uma missão existencial mais ampla que envolve a profissão. Quanto mais a profissão estiver próxima, for adequada e integrada à vocação, mais plenamente podemos responder ao chamado vocacional que a vida nos faz.
É necessário resgatar, no mundo de hoje, o sentido do trabalho, pois, de um modo geral, o tipo de trabalho que as pessoas enfrentam mais reduzem a sua condição do que contribuem para o seu crescimento individual. O trabalho só adquire sentido quando os valores criativos da pessoa são desenvolvidos e estimulados, quando ela se vê representada por seu trabalho e, de um modo mais incisivo, quando este tem uma relação profunda com a dimensão ontológica dessa pessoa, ou seja, com aquilo que ela é.
O trabalho representa o campo em que o “caráter de algo único” e irrepetível do indivíduo, sua originalidade manifestada na sua produção ou sua produtividade, relaciona-se com a comunidade, recebendo dela e de Deus o seu reconhecimento, o seu sentido e o seu valor. Esse sentido e esse valor são inerentes à realização da contribuição para a comunidade e não meramente à profissão como tal.
Somente o trabalho feito com amor é transformador, qualquer que seja ele. Só o ser humano é capaz de transformar a situação mediante a ação modeladora do amor.
Na Psicologia Organizacional do Trabalho, ao tratar um profissional de qualquer área (engenheiro, médico, mecânico, pedreiro), vemos que o mundo, dominado pela técnica, preocupa-se muito com a teoria, a especialização, a capacitação, a parte racional do trabalho (Homo Sapiens). Nessa visão, o profissional considera seu cliente apenas um número a mais para atender, só há preocupação com “o que” fazer, e não o “como” fazer, ficando o trabalho desumanizado.
Mais importante que “o que” fazemos, é o “como” realizamos o exercício da nossa profissão ou de um trabalho qualquer. O “como” fazemos (Homo Patiens) é que nos torna uma pessoa única e irrepetível. Não é, portanto, um determinado tipo de profissão que oferece ao homem a possibilidade de atingir a plenitude. Nesse sentido, pode-se dizer que nenhuma profissão faz o homem feliz. A profissão em si não é ainda suficiente para tornar o homem insubstituível; o que a profissão faz é, simplesmente, dar-lhe a oportunidade de exercer o amor.
A arte de ser profissional, qualquer que seja (mecânico, médico, engenheiro ou psicólogo), necessita de um desenvolvimento do ser existencial para viabilizar o amor nesse exercício profissional. O “como” fazer o trabalho, a realização, a paixão que o envolve, o ardor, o sofrer, o significado dessa profissão no mundo de hoje (Homo Patiens) é que nos torna pessoas especiais. O “como” se exerce uma função qualquer é que dá ao profissional segurança, autoridade e amor ao que faz e a quem faz.
Essa visão integral, intelectual e emocional, Homo Sapiens e Homo Patiens que há no exercício da profissão precisa ocorrer desde a formação educacional. Esse mesmo enfoque precisa ser considerado na missão existencial e na vocação, visto que um bom profissional é precursor de um bom vocacionado. Por isso é que se torna necessário o exercício da profissão como preparação à vida vocacional.
A nossa vontade ao escolher uma opção qualquer trabalha com a motivação de interesses que atua no ser humano. Ao analisar os interesses ou as motivações que movem o ser humano, vemos que se agrupam em três tipos de valores de vida.
Os valores são forças motivadoras que dão direção e sentido para a vida -¾ levam-nos a transformar o mundo (valores criativos), a experimentar o mundo (valores vivenciais) e a nos transformar por dentro diante de situações-limite do mundo (valores de atitude).
Os valores criativos ocupam o primeiro plano da missão da vida e a sua consumação concreta coincide, muitas vezes, com o trabalho profissional. Estão relacionados com a capacidade do ser humano de criar, à medida que, mediante o trabalho, transforma realidades, materiais e de vida, em outras melhores. Os valores criativos são os valores ou critérios que utilizamos para criar algo, realizar determinados projetos, enfim, quando interferimos, transformamos ou modificamos o ambiente e as pessoas à nossa volta.
Os valores experienciais ou vivenciais são aqueles adquiridos através de uma experiência interior, artística, pessoal, etc. Por exemplo, quando acolhemos, saboreamos ou contemplamos o mundo externo dentro de nós. São os valores constituídos através da experiência dessas realidades. Experimentamos a bondade, a verdade, a beleza, a natureza, a cultura, o esporte, o lazer, o descanso (sem culpa), a arte, ou ainda, outro ser humano em sua originalidade única, amando-o. Esses valores vivenciais restauram-nos, rejuvenescem-nos.
Os valores de atitude são os recursos internos do ser humano em situações-limite. Quando não há mais saída, nem soluções na realidade externa, quando estamos em uma situação de sofrimento inevitável, ainda assim podemos mudar o nosso interior e optar, escolher qual atitude adotar diante desse fato e dar um significado à dor. O ser humano pode mudar sua atitude frente a situações-limite de sofrimento, culpa e morte. Até no sofrimento podemos ter atitudes responsáveis. Tudo na vida tem sentido.
“É claro que o logoterapeuta não pode dizer a um paciente o que é um sentido, mas pode ao menos demonstrar que na vida existe um sentido e é acessível a qualquer pessoa e que a vida conserva o seu sentido em qualquer situação. Ela permanece cheia de sentido até o último instante”.  (Frankl, Viktor E., Um sentido para a vida, p. 34).
À medida que realizamos os valores criativos, vivenciais e de atitudes nas situações concretas, vamos tecendo o significado da nossa vida. Agora, como cristãos, será que o significado de nossa vida tem revelado a pessoa do Cristo no nosso ambiente de trabalho profissional?

Juracy Villares

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